Hoje foi um bom dia, mas não vim aqui para falar da parte boa e sim da volta para casa. Quando dentro do ônibus, voltando pra casa, uma mulher desmaia. Cai simplesmente. No momento houve um rebuliço:
_ Uma mulher desmaiou aqui motô.
_Para o ônibus ae motô, uma mulher desacordada!
E assim permaneceu até que o ônibus parou e as portas foram abertas para a entrada de ar. No momento eu continuei quieto, pensando: daqui a pouco ela acorda e pronto. Mas isso não se deu. Por muito tempo a menina, de 22 anos, permaneceu desacordada. Quem estava perto, levantou do assento e dificultou, de certa forma, a respiração dela.
São em momentos assim que você escuta a opinião de todo mundo ao mesmo tempo, todos desesperados e ansiosos para parecerem importantes e/ou prestativos.
_ Pega a bolsa dela.
_ Coloca a cabeça dela reta e segura... Não, não! Deixa a cabeça dela inclinada para frente... Assim!
_ Puxa as pernas dela, coloca reta e levanta – disse a moça de blusa verde. Ela parecia a mais entendida.
_ Sai de perto gente, ela está sem ar. (sempre dizem isso quem já viu filmes ou novelas u_u )
_ Falta de oxigenação no cérebro, ela está com o pulso fraco mas ainda respira sozinha – mulher de verde novamente.
_ Tira ela de dentro do ônibus, ela precisa respirar!
_ Continua aê motorista. Lá na frente tem um posto policial.
_ Liga pra SAMU.
_ Já liguei e estão vindo.
_ Duvido muito, liga pra polícia, pros bombeiros ( Oo)
Depois de um tempo, ela não apresentava nenhuma reação, comecei a ficar com medo. Levaram-na para fora do ônibus e a colocaram na calçada. Desceram muitos e muitos para ficar tentando dar pitacos com seus diplomas de enfermagem na mão. Levantando as pernas da moça, ela abria os olhos, mas não falava nada. Eu achava que deveriam sentar ela e colocar a cabeça para baixo, mas não quis dar opinião.
_ Liguei na polícia e nos bombeiros e eles falaram que não podem fazer nada, somente a SAMU.
_ Esses servidores públicos são muito folgados.
_ A menina vai morrer aqui e não vão fazer nada.
_ Só vêem aqui se você falar que alguém foi atropelado e ta morrendo.
Isso que eu fiquei pensando. No meio duma avenida, com uma vítima desacordada, com dificuldade para respirar, com o pulso diminuindo, comofas? Apela pra quem? Muitos disseram para Deus, mas se fosse comigo, sairia gritando, brigando, chutando todo mundo e dando instruções (você segura a perna, você pega a bolsa e vê o nome dela, e o resto volta para seus lugares por favor).
O pior de tudo foi quando ela começou a ter convulsões. Aí que entra novamente a tia da blusa verde que não deixou que tentassem segurar a língua dela, e colocou ela de lado. Disso eu sabia, até que a mordida do músculo da mandíbula é uma tonelada ou mais não sei. Só sei que nunca se deve tentar segurar a língua, porque isso é uma coisa ridícula.
Resultado: chegou a SAMU, a paramédica só apertou o peito dela, onde fica o encontro dos dois pulmões, e a menina acordou na hora, mas ainda estava bamba. Depois de um tempo, o ônibus saiu. No ônibus a história não era outra. Todos comentando da aventura e contando a teoria de cada um e como agiram. A de verde sempre falando do procedimento dela, que fizeram o máximo que puderam fazer. Sem contar a moça do meu lado que estava preocupada em saber se a moça tinha problemas cardíacos, contando a história de quando ela desmaiou e o outro cara: “nunca desmaiei”.
Agora eu paro e penso: se fosse comigo, o que eu faria?
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